Terapeuta e psicanalista Samiza Soares explica como mulheres e homens se sentem diante do adiamento da concepção e fala sobre importância da terapia para os casais que resolveram encarar a gestação neste momento de crise sanitária.
A gravidez é um momento único na vida de uma mulher. Na pandemia, as emoções em torno da gestação ficaram maiores pelo desconhecimento em relação ao novo vírus e aos possíveis impactos que ele pode trazer ao feto. Diante disso, no último mês, o Ministério da Saúde recomendou que mulheres adiassem a gestação, dado o aumento do número de casos de Covid-19 no país. O pedido causou repercussão e levantou a dúvida: é necessário adiar os planos da maternidade?
“Do ponto de vista psicológico, não. O adiamento da maternidade, que é visto por muitos casais como um sonho, não deve acontecer neste momento se avaliarmos os impactos que ele pode trazer. Porém, olhando por uma ótica mais ampla, é seguro dizer que ainda não sabemos os efeitos da Covid-19 nos bebês e nas mães que, porventura, infectarem-se”, afirma a terapeuta e psicanalista, Samiza Soares.
Segundo a especialista, que atende pacientes em todo o país por meio de videochamadas, existem muitos efeitos emocionais em adiar uma gravidez, como depressão, sentimento de inadequação social, além de impactos na relação a dois.
“A tentativa de gravidez, em tempos fora de pandemia, já é um período desafiador e de ansiedade. Receber uma orientação para abrir mão desse sonho, sem uma perspectiva de quando poderá retomá-lo, é contrariar as expectativas pessoais, os valores e as crenças que muitas pessoas nutrem em relação à gestação, explica.
De acordo com Samiza, da ótica psicológica, a habilidade de conceber e dar à luz uma criança está relacionada às noções de feminilidade e de masculinidade, à identificação de gênero e à compreensão da vida.
“Quando os esforços para conseguir procriar falham, o casal é assolado por sentimentos profundos de culpa e de inadequação social, os quais levam a frequentes questionamentos e a revisões das suas vidas e dos fatos que poderiam ter levado à infertilidade”, comenta. “Receber uma recomendação de um órgão de saúde para não engravidar, neste momento, pode gerar a mesma sensação de dúvida e de medo”, completa.
Como encarar o momento?
A especialista afirma que a decisão sobre engravidar ou não durante a pandemia é pessoal. Porém, independente da escolha do casal, ter um acompanhamento psicológico para encarar a gestação neste momento, ou lidar com o adiamento é de extrema importância para a saúde mental.
“O acompanhamento terapêutico provê suporte, compreensão e novas experiências que levarão a um resultado de aprendizado, de novas formas de comportamento e de perspectivas. Além disso, abre-se um espaço para que homens e mulheres possam trabalhar, de uma forma sistemática e organizada, as dificuldades, as dúvidas e as decisões, e ter a oportunidade de explorar, de descobrir e, eventualmente, de experimentar novas formas de vida ou estratégias para lidar com essa orientação”, esclarece.
“É muito importante que o paciente esteja engajado na sua escolha e seguro para enfrentá-la pelo tempo que estivermos vivendo a pandemia”, finaliza.
Sobre a especialista
Além de oferecer trabalho especializado, Samiza também é uma referência na internet. No Instagram, onde possui mais de 50 mil seguidores, ela faz postagens diárias sobre a importância do terapeuta no enfrentamento das questões do dia a dia.