Amigo leitor:
Recentemente, um familiar me questionou como eu podia admirar o Duque de Caxias, um homem perverso, que havia matado crianças na Guerra do Paraguai. Foi longa a conversa, para que ele entendesse que Caxias não foi perverso, não matou crianças, e de onde surgira essa narrativa estapafúrdia, cruel, falsa e que mancha a memória de um homem a quem o Brasil deve muito. Como foi isso?
Em janeiro de 1869, a capital do Paraguai foi ocupada pelas forças da Tríplice Aliança, Argentina, Brasil e Uruguai. Isso deveria significar o fim da “maldita guerra”, como Caxias a chamou em carta ao Imperador. Mas Solano Lopes reuniu milhares de soldados e iniciou uma longa fuga pelo interior do Paraguai devastado. Em cada localidade, ele convocou todas as pessoas para lutar contra as tropas aliadas que vinham em perseguição. E “pessoas” incluía crianças de menos de 15 anos. Quem tentasse fugir ou recusasse, era imediatamente executado.
Na chamada “Campanha da Cordilheira”, a custosa operação para captura de Solano Lopes, ocorreram diversas batalhas entre os aliados e batalhões organizados por Lopes. Este sempre conseguia escapar enquanto seus comandados atrasavam os perseguidores.
Em agosto de 1869, na região denominada Campo Grande, junto aos rios Peribebui e Juqueri, o General paraguaio Bernardino Caballero, sob ordens de Lopes, organizou uma tropa de cerca de 6.000 combatentes, incluindo muitas crianças. Os próprios historiadores da época contam que os militares paraguaios, quando acabaram os fuzis, deram varas aos meninos para simular armas, e sujaram os rostos para parecerem adultos. O objetivo era intimidar os aliados, influenciar na manobra à custa da vida daquelas crianças.
Em 16 de agosto de 1869 as tropas aliadas atacaram com 20.000 soldados. E em meio ao tiroteio, explosões, fumaça e caos, somente depois do ataque os brasileiros descobriam que alguns de seus inimigos eram crianças. Caballero mandou atear fogo à macega, para a fumaça encobrir sua retirada para outras posições após o Rio Juqueri. O fogo alastrou-se e queimou um hospital, além de inúmeros feridos brasileiros e paraguaios caídos no campo.
Ao final, 2.000 mortos paraguaios, e 46 brasileiros, uma multidão de feridos
Participantes da Guerra, como o Visconde Taunay e Dionísio Cerqueira, registraram em suas memórias o horror dos combatentes brasileiros ao verem crianças paraguaias mortas pelo tiroteio e explosões, ou sob os cascos dos cavalos em carga.
Então, não houve “assassinato de crianças paraguaias”. Se algum culpado houve, foi quem as armou e colocou num campo de batalha do século XIX.
E Caxias? Havia passado Comando e saído do país oito meses antes desse combate.
Mas… nos anos 1970, no contexto do governo militar pós-64, surgiram alguns livros procurando desqualificar os patronos brasileiros, quase todos heróis da Guerra do Paraguai. Tais publicações, mais panfletos do que livros, difundiram muitas inverdades. Uma das falsas informações é de que os brasileiros atacaram sabendo que os defensores no Campo Grande eram crianças, e as matavam mesmo quando desarmadas, implorando pela vida. Que incendiaram propositalmente o hospital. Só que nenhum documento da época, brasileiro ou paraguaio, diz isso. Tudo saiu da cabeça de um “escritor” brasileiro dos anos 70 que queria atacar o governo militar. Infelizmente, pelo contexto da época, de revolta dos meios acadêmicos contra o governo militar, o livreto “Genocídio Americano” ganhou ares de verdade, e até hoje suas falsas informações repercutem nos meios acadêmicos e na Internet.
Felizmente, pesquisadores independentes têm buscado as fontes originais em muitos países, e trazido a verdade à tona, sem os ranços ideológicos que sempre favorecem a mentira. Eles evitam o ufanismo dos primeiros períodos, que mostrava os brasileiros como deuses, e também a difamação movida por raiva contra os militares dos anos 1970. Recomendo a leitura de “Maldita Guerra”, e, caso duvide, uma pesquisa sobre a caudalosa lista de fontes consultadas pelo autor, Francisco Doratiotto.
Amigos, orgulhemo-nos de nossos heróis. Sendo humanos, tinham falhas, mas jamais foram monstros. Até a próxima.
Por: Francisco Mineiro
Imagem: Quadro “Batalha de Campo Grande, de Pedro Américo.