Há cinco anos, o número de divórcios no país cresceu em média 75%. Com a pandemia, aumentou em 15% na comparação com o ano anterior. Psicanalista e terapeuta Samiza Soares elenca os motivos que levam ao fim do matrimônio.
Pandemia, rotina, filhos, problemas no trabalho, questões financeiras. Essas são algumas das razões pelas quais homens e mulheres passam a desgostar da vida conjugal e começam a considerar que a vida sem o parceiro é muito mais feliz. A mudança no relacionamento, apesar de não ser repentina, acontece, na maioria das vezes, sem aviso prévio: a paixão dá lugar ao carinho frio do dia a dia, os altos e baixos da vida conspiram para o esgotamento da vida a dois, e, em pouco tempo, você se vê infeliz.
Dados do Colégio Notarial do Brasil – Conselho Federal (CNB/CF) – mostram que a pandemia da Covid-19 registrou, em 2020, um aumento de 15% no número de divórcios no país, na comparação com o ano anterior. Um total de 43,8 mil processos, segundo o órgão.
Entretanto, para a terapeuta e psicanalista Samiza Soares, que faz atendimentos clínicos a casais, não é só a pandemia que motiva a separação. De acordo com a especialista, uma série de fatores, como falta de diálogo, de atenção ao parceiro e de interesse sexual, podem ser caracterizados como violões matrimoniais.
“A fase de lua de mel raramente dura para sempre. Aos poucos, aquela vontade de dormir de conchinha e de trocar beijos ardentes vai acalmando, e o relacionamento vai entrando em uma zona de conforto e acomodação. E isso é normal e saudável. Porém, o sinal de alerta acende quando a situação se torna uma relação sem amor e, nem mesmo sabendo como, os dois se percebem em um casamento infeliz”, pontua.
E ela está certa: os casamentos desfeitos são um crescente no país. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de divórcios cresceu 75% em cinco anos. Só no primeiro semestre do ano passado, o total de divórcios saltou para 7,4 mil, um aumento de 260% se comparado à média de meses anteriores.
“Muitos casamentos sofrem não apenas com problemas de comunicação, mas também com a falta de equilíbrio, que é quando apenas um dos parceiros cede, mas o outro sempre se recusa a reconhecer seus erros. Isso pode acontecer porque os objetivos de vida de um deles mudaram e já não se alinham mais com o parceiro”, comenta. “Outra possibilidade é quando sentem que suas preocupações nunca são levadas a sério no relacionamento. Em qualquer um dos casos, os parceiros ficam presos em uma armadilha nada saudável e se desconectam por estarem exaustos demais para brigar”, completa.
Ainda segundo Samiza Soares, apesar de todos os casamentos (inclusive os mais felizes) terem conflitos e muitos deles serem tratáveis com terapia, alguns nem valem o trabalho do conserto.
“Seja qual for o resultado, observar as tensões no seu casamento traz a oportunidade de encontrar a felicidade, o que pode ocorrer ao lado do seu companheiro, com um novo [Ai9] alguém, ou simplesmente só. O segredo é descobrir se os problemas são uma fase ruim, ou se realmente o amor deu lugar à infelicidade”, afirma.
Como identificar? A especialista traçou algumas reflexões para ajudar a identificar se você está em um relacionamento infeliz, confira!
Sexo frágil: “Claro, a vontade sexual das pessoas é diferente, mas, se você e o parceiro(a) passaram do nível ‘muitas vezes na semana’ para ‘uma vez a cada dois meses’, existe uma grande chance de alguém estar se sentindo rejeitado. O que faz o romance do casamento é a combinação da intimidade física com a emocional.”
Vivendo uma fantasia: “Imaginar que você é casado(a) com outra pessoa, ou que está solteiro(a) não é sempre um sinal preocupante. Entretanto, pensar rotineiramente em uma vida sem o seu parceiro(a), ou comparar seu momento atual com uma vida imaginária na qual você estaria com outra pessoa é um alerta de que você talvez não esteja tão atraída pelo seu atual companheiro(a).”
No mundo da lua: “Se até mesmo quando se está no sofá com seu parceiro (a), você sente que ele(a) não está lá com você de corpo e alma e que vive mais engajado nas redes sociais do que no papo entre vocês, é sinal de que o terreno não é mais assim tão sólido.”
Sem motivo para sorrir: “É importante que casais encontrem leveza quando as coisas ficam mais pesadas. Se vocês dois já não conseguem mais rir juntos, isso pode ser um sinal de que precisam de ajuda para sair desta fase.”
Campo minado: “Se a maioria das conversas acaba em discussão, em vez de minimizar as brigas com reações comuns, considere os motivos das discussões e a frequência delas. Você pode conseguir resolver o problema, ou descobrir que você e o parceiro(a) estão levando um casamento infeliz e não se completam mais.”
Por fim, a especialista lembra que “casamentos felizes são tão felizes quanto as pessoas que os compõem”, por isso, ela afirma que não é saudável esperar até que seja tarde ou difícil demais para tentar reverter a situação. “Quanto mais tempo a negatividade permanece, mais amplo é o abismo resultante e mais difícil é construir uma ponte”, finaliza.
Sobre a especialista
Além de oferecer trabalho especializado, Samiza também é uma referência na internet. No Instagram, onde possui cerca de 50 mil seguidores, ela faz postagens diárias sobre a importância do terapeuta no enfrentamento das questões do dia a dia.